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Transtorno de Dissociação de Identidade (TDI): Quando muitas identidades formam um sistema na mente.

O Transtorno de Dissociação de Identidade (TDI), também conhecido como transtorno de personalidade múltipla, é um tema complexo e intrigante no campo da psicologia e da psiquiatria. Iremos transcorrer sobre o TDI e passar pelos tópicos mais importantes desse transtorno: desde seu panorama histórico até sua classificação, diagnóstico e tratamento. Vamos adentrar nas profundezas da mente humana para compreender como esse transtorno impacta a vida das pessoas que possuem esse diagnóstico.


O Transtorno de Dissociação de Identidade (TDI) tem raízes profundas na história da psicologia e da psiquiatria. Desde os primórdios das observações clínicas até o reconhecimento contemporâneo de sua importância. No século XIX, casos de personalidades alternantes começaram a chamar a atenção dos médicos e pesquisadores. O famoso caso de Mary Reynolds, em 1811 (1) , é frequentemente considerado um dos primeiros registros documentados de uma pessoa com sintomas dissociativos. Ela exibia comportamentos e atitudes distintas, como se fossem personalidades diferentes - seus comportamentos intercalavam entre duas identidades -, levando a uma crescente curiosidade sobre esse fenômeno.

No início do século XX, o termo "personalidade múltipla" começou a ser usado para descrever casos em que as pessoas alternavam entre diferentes estados de personalidade. A teoria psicanalítica de Sigmund Freud (2, ver neuroses de guerra) também lançou luz sobre a mente inconsciente e seus potenciais conflitos, ajudando a estabelecer uma base para compreender a dissociação e as diversas interfaces da mente. Freud desenvolveu a teoria dos mecanismos de defesa enquanto estratégias psicológicas que a mente utiliza para lidar com ansiedades e conflitos internos do sujeito. Um mecanismo de defesa que está particularmente relacionado ao TDI é a "dissociação". Freud descreveu a dissociação como um processo de separação de pensamentos, sentimentos e memórias que seriam normalmente integrados pelo sujeito. Embora ele tenha usado o termo de maneira bem mais ampla, suas ideias sobre dissociação influenciaram e ajudaram no entendimento subsequente do TDI.

No entanto, foi na década de 1970 que o TDI realmente começou a receber uma atenção mais ampla com a publicação do livro "Sybil" pela escritora Flora Rheta Schreiber. O livro contava a história de Shirley Ardell Mason, uma paciente que supostamente apresentava 16 personalidades distintas. Embora algumas críticas tenham questionado a precisão da narrativa, a publicação trouxe o transtorno para a consciência popular e levantou questões sobre a autenticidade do TDI.

Avançando para os anos 1980 e 1990, o diagnóstico do TDI tornou-se mais formalizado e estruturado, ganhando reconhecimento clínico e de certa forma social. A publicação do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-III, DSM-III-R e DSM-IV) trouxe o transtorno para a esfera psiquiátrica o que facilitou o diagnóstico e o tratamento. Com o lançamento do DSM-5 em 2013, o termo "Transtorno de Dissociação de Identidade" substituiu a terminologia anterior de "personalidade múltipla", refletindo uma abordagem mais precisa e menos estigmatizada. A evolução das técnicas de diagnóstico, juntamente com pesquisas avançadas em neurociência e trauma, tem contribuído para um entendimento mais profundo das causas subjacentes do TDI.

Trauma, Conflito Interno e Estruturas da Personalidade

Freud também explorou a relação entre traumas e distúrbios mentais. Ele reconheceu que experiências traumáticas, especialmente na infância, poderiam resultar em sintomas psicológicos complexos. A teoria do TDI está intimamente ligada ao histórico de trauma, e Freud contribuiu para a compreensão de como experiências traumáticas podem dar origem a fenômenos dissociativos e formas complexas de enfrentamento. 

A neurociência moderna tem contribuído significativamente para a compreensão dos efeitos do trauma no cérebro e na mente. Experiências traumáticas podem levar a alterações neurobiológicas, especialmente no sistema límbico, que é responsável pelas emoções e memórias. Estudos mostram que traumas intensos podem impactar a conectividade entre diferentes áreas cerebrais, influenciando a forma como o cérebro processa e armazena memórias relacionadas ao trauma. No contexto do TDI, eventos traumáticos podem levar a fragmentações das memórias, resultando em diferentes identidades ou estados dissociativos. Através de alterações na rede de memória e no processamento emocional, o cérebro pode criar "compartimentos" separados de memórias e sentimentos associados ao trauma, contribuindo para a experiência de múltiplas identidades.


Incidência, Sintomas e Impactos na Vida do Sujeito

A incidência exata do TDI é difícil de determinar devido à complexidade da condição e às dificuldades inerentes do diagnóstico. Estima-se, entretanto, que afete aproximadamente 1% a 5% da população (3, 4, 5), embora muitos casos possam passar despercebidos. Os sintomas centrais do TDI envolvem a presença de duas ou mais identidades distintas dentro de um indivíduo, cada uma com sua própria maneira de perceber e interagir com o mundo. A amnésia entre essas identidades é comum, assim como a presença de traumas na história do paciente.

O TDI pode ter um impacto profundo na vida do indivíduo afetado. As mudanças repentinas entre identidades podem resultar em confusão, desorientação e problemas de memória. As identidades alternantes frequentemente têm diferentes preferências, habilidades e atitudes, o que pode levar a conflitos internos. Isso pode afetar os relacionamentos pessoais, a funcionalidade no trabalho e a qualidade de vida geral.

O TDI é classificado no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) como um transtorno dissociativo. É caracterizado pela presença de duas ou mais identidades distintas, acompanhadas de amnésia entre elas. Além disso, o transtorno está frequentemente associado a traumas, como abuso físico ou sexual durante a infância. 

Diagnóstico e Tratamento

O diagnóstico do TDI é um processo complexo que requer uma avaliação detalhada por um psiquiatra. Entrevistas clínicas, avaliações psicológicas e histórico de trauma são componentes importantes desse processo e compõe um dos critérios de diagnóstico. Uma abordagem multidisciplinar é frequentemente adotada para avaliar o paciente em diferentes contextos.

DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª edição):

  1. Mínimo de duas identidades ou estados de personalidade distintos.
  2. Amnésia entre as identidades.
  3. Causa significativa de sofrimento ou prejuízo.
  4. Não deve ser devido a efeitos de substâncias ou condição médica.

CID-10 (Classificação Internacional de Doenças, 10ª edição):

  1. A existência de pelo menos duas personalidades distintas.
  2. A percepção de uma perda da memória pessoal importante.
  3. A presença de causa psicogênica.
  4. Causar sofrimento ou prejuízo significativo

O tratamento do TDI geralmente envolve terapia psicológica intensiva. A terapia cognitivo-comportamental (TCC) é frequentemente utilizada para ajudar o indivíduo a entender e gerenciar suas diferentes identidades, trabalhar em traumas subjacentes e desenvolver estratégias de enfrentamento saudáveis. Já abordagens psicodinâmica, conseguem contemplar o sujeito como um todo e abraçar seu passado e traumas infantis. Além disso, a terapia medicamentosa pode ser considerada para tratar sintomas específicos, como depressão ou ansiedade, que estão frequentemente associados a esse transtorno. 


O Transtorno de Dissociação de Identidade é um fenômeno complexo que continua a intrigar pesquisadores e profissionais de saúde mental. E apesar das diversas contestações e hipóteses contrários a essa classificação, diversos estudos continuam tentando compreender sua causa e seus sintomas no impacto na vida das pessoas e para quem possui esse transtorno é crucial um diagnóstico e tratamento adequados. À medida que a pesquisa avança, esperamos que novas abordagens terapêuticas continuem a surgir, e as existente se aperfeiçoem ainda mais, oferecendo esperança e apoio àqueles que vivem com esse desafio único dentro da mente humana.

Fontes:

(1) https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/3308663/

(2) http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2176-48912012000100003&lng=pt&nrm=iso

(3) Malcolm, L. S. (2003). A study on dissociative identity disorder in Japan. 170f. Tese (Doutorado). Graduate School of Professional Psychology, John F. Kennedy University.

(4) Ross, C. A. (1991). Epidemiology of multiple personality disorder and dissociation. Psychiatric Clinics of North America, 14(3), 503-517.

(5) https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47134/tde-18032015-105415/publico/maraldi_original.pdf


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Quarta, 29 Mai 2024